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Quintiliano H. de Mesquita: O Depoimento de um Aliado e Colaborador
Trabalhando na área da saúde desde 1964 em uma empresa fornecedora de aparelhagens, instrumentos e outras tecnologias médicas, especialmente para a cardiologia, fui conhecer o Doutor Quintiliano de Mesquita, pessoalmente e por via familiar, apenas em 1971. Com a proximidade no relacionamento, tornei-me seu amigo, admirador, ouvinte privilegiado, aliado, colaborador e um eterno discípulo. Mesmo após ter deixado o ramo de fornecimento de equipamentos médicos em 1983, na busca de novos ares no ambiente profissional, continuei a desfrutar do conhecimento sobre suas novas pesquisas médicas e descobertas, bem como das dificuldades que enfrentava para discutir idéias e resultados de seus trabalhos junto a comunidade médica.
Com a compreensão da dimensão e importância de suas realizações e da necessidade que tinha de aliados, frente ao dogmatismo das escolas médicas e a habitual indiferença de muitos de seus pares, das sociedades médicas e da mídia em geral para suas geniais descobertas, decidi me incorporar na luta do Doutor Mesquita. Assim, procurei ajudá-lo na divulgação de seus trabalhos e conceitos, principalmente da Teoria Miogênica do enfarte do miocárdio, com a prevenção e tratamento através de cardiotônicos (digitálicos, estrofantina, etc).
Acompanhando-o de perto pude vivenciar o boicote sofrido por ele durante anos. O Doutor Mesquita era um homem bastante paciente, confiante e decidido e jamais percebi nele, independente de quaisquer obstáculos que se apresentassem, sinais de esmorecimento em sua coragem e vontade de ver a discussão e, como resultado, o reconhecimento de seus trabalhos, o que, infelizmente, não aconteceu enquanto estava vivo.
Após o lançamento em 1979 de sua monografia sobre a Teoria Miogênica, entrei em contato com o departamento de jornalismo de grandes empresas de comunicação, tanto da imprensa falada quanto escrita, para divulgação. Os resultados que obtivemos foram bastante pequenos pois o bloqueio já era forte na época, não sei se apenas por preconceito ou também por censura.
O Doutor Mesquita não dava importância a fama que poderia advir, caso suas descobertas caíssem no domínio público. Testemunhei, por exemplo, uma situação que deixou isso bastante evidente. Quando recebeu o Prêmio de Tradição Ernst Edens, da Sociedade Internacional de Combate ao Enfarte em 1975, pediu a seus assistentes, família e amigos que não o divulgassem, pois poderia prejudicar o andamento de pesquisas que estava dando seqüência.
Ele não fazia auto-promoção para conseguir atenção da mídia sobre suas descobertas. Pensava ser suficiente a apresentação de seus achados ao meio acadêmico, seja através de publicações médicas ou em congressos científicos de sua especialidade.
A atitude discreta que adotava com relação a divulgação de suas descobertas pode, por si só, demonstrar toda sua superioridade moral, desprendimento, seriedade e compromisso ético com a medicina e a ciência. O que é corroborado em livro de 1996, onde afirma: "O que nos anima é tão somente o sentimento de utilidade ao próximo; a vaidade cabe bem na falta de criatividade e da imaginação dos egocêntricos e na mediocridade estrategicamente situada e armada pelo poder".
Muitas vezes, quando perguntado sobre alguma questão médica ainda não suficientemente esclarecida o Dr. Mesquita dizia simplesmente que não sabia, procedimento não muito comum entre outros luminares da ciência médica que tem resposta para tudo. Aí estava a face de um verdadeiro cientista que, humildemente, admitia a máxima “Quanto mais você sabe, mais e de forma exponencial você se torna um ignorante”.
A partir do início da década de 90, já com sua paciência esgotada com a omissão deliberada ou com a oposição ativa, mas silenciosa, de colegas que estavam no "poder", alimentada por muitos outros com investimentos no "status quo", resolveu lançar 2 livros:
No primeiro livro publicado em 1991 e intitulado "Como escapar da ponte de safena e do enfarte do miocárdio, só com remédio", discorreu sobre a doença e seu tratamento conforme a Teoria Miogênica. Aproveitou para contar nesse livro sobre o recebimento do Prêmio Ernst Edens e da reportagem em 1980 pela revista alemã Bunte sobre o cardiotônico na angina estável, na angina instável e no enfarte agudo do miocárdio, terapêutica utilizada no Instituto de Angio-Cardiologia do Hospital Matarazzo, em São Paulo, durante o período de 1972 - 1979. No final de 1979 o Dr. Mesquita deixou a direção desse Instituto, que vinha acontecendo desde sua fundação em 1945.
No segundo livro, escrito em 1996, "Remédio boicotado substitui cirurgia de ponte de safena", falou sobre a postura da ortodoxia cardiológica e dos boicotes que aconteceram com seus trabalhos recusados para publicação por algumas revistas médicas e na apresentação em congressos de cardiologia aqui no Brasil.
Nos 2 livros constaram críticas vigorosas contra alguns raciocínios e procedimentos cardiológicos da atualidade e também quanto a certos preconceitos entranhados na cultura médico-científica dessa especialidade, pois contrariavam as evidências da prática clínica.
Na verdade, com exceção do boicote sistemático, nunca aconteceram reprovações, provocações, contestações, questionamentos ou quaisquer outros ataques diretos realizados publicamente, contra os resultados das pesquisas e opiniões heterodoxas do Doutor Mesquita. Talvez por falta de argumentos ou porque reconheciam sua estatura médico-científica, mas sem querer glorificá-lo. E, mesmo que existissem tais ataques, não conseguiriam intimidá-lo.
De outro lado, não houve interesse por parte de pesquisadores médicos de outros grupos quanto ao aprofundamento no estudo sobre a Teoria Miogênica e na realização de ensaios clínicos da terapia através de cardiotônicos, para o tratamento e prevenção do enfarte.
Esses pesquisadores médicos, preferindo ignorar a Teoria Miogênica, não correram riscos da obtenção de resultados cujas evidências não poderiam refutar. Isto lembra o famoso exemplo da recusa da igreja católica em olhar através do telescópio de Galileu. Sabiam que não poderiam refutar a evidência de seus próprios olhos. Então, se recusaram a olhar. Mas, naquela época, contra a heresia, existia a inquisição.
Foi somente a partir de 1998 é que conseguimos uma maior divulgação da obra do Doutor Mesquita, com a criação do Instituto de Combate ao Enfarte do Miocárdio, entidade informativa voltada à defesa do cardíaco e de luta contra o enfarte, idéia acalentada há tempos por seus simpatizantes, partidários, discípulos e colaboradores, a qual prosperou com o advento da Internet que, democrática, ajudou a romper a barreira da censura.
O Doutor Mesquita dirigiu o Instituto de Combate ao Enfarte do Miocárdio até seu falecimento, em 28 outubro de 2000. A partir daí procurei levantar os documentos relacionados aos seus trabalhos e pesquisas, juntando cartas de médicos nacionais e estrangeiros comentando sobre suas contribuições à ciência, prêmios, memórias, homenagens, reportagens, além de artigos já publicados e outros ainda não publicados, no sentido de preservá-los e de buscar meios de perpetuar sua memória médico-científica.
Esses documentos foram passados ao Instituto, que transformou seu website na Internet em um Memorial permanente ao Doutor Quintiliano de Mesquita, expondo nele a cópia de quase todos os documentos referidos. Através de suas muitas páginas o website do Instituto representa um grande manancial de informações, tanto para os pacientes e suas famílias quanto para os profissionais da área de saúde. Funcionando em conjunto com o website do Infarct Combat Project, seu braço internacional que apresenta informações similares em inglês recebe mensalmente mais de 15.000 visitantes, do Brasil e do exterior.
Em maio de 2000, quando em visita à Alemanha, entrei em contato com o Doutor Heinz Shoeffler, que tinha sido secretário da Sociedade Internacional de Combate ao Enfarte à época do Prêmio de Tradição Ernst Edens, outorgado ao Doutor Mesquita e sua equipe. Nosso objetivo era o de procurar uma aproximação entre essa sociedade e nosso Instituto de Combate ao Enfarte do Miocárdio. O Doutor Shoeffler disse-me nessa ocasião que permanecia na mesma posição sobre o tratamento com a estrofantina, mas que se sentia bastante idoso para continuar lutando contra o sistema. Quanto a Sociedade Internacional de Combate ao Enfarte ela encerrou suas atividades pressionada pela força de lobbies da medicina tradicional segundo correspondência de janeiro de 2001 de um amigo na Alemanha que esteve, por iniciativa própria, em contato com a viúva de Berthold Kern, ex-Presidente dessa sociedade.
Em janeiro de 2001 tive a oportunidade de publicar uma homenagem ao Doutor Mesquita na Seção “In Memoriam” dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia, onde constou uma relação com suas principais conquistas para a medicina. Posteriormente consegui publicar 3 de seus artigos inéditos na revista Ars Cvrandi, edições de maio e setembro de 2002. Em um deles foi mostrada sua experiência de 28 anos usando cardiotônicos na prevenção do enfarte. Este trabalho só perde em importância para a Teoria Miogênica do enfarte do miocárdio, que representa a base para a aplicação desse tratamento.
O uso da estrofantina na prevenção e no tratamento do enfarte agudo do miocárdio está novamente em discussão na Alemanha sob a iniciativa de Wolf-Alexander Melhorn, Rolf-Jürgen Petry e de outros que estão procurando reabilitá-la, através da publicação de livros e divulgação na Internet. Temos nos correspondido durante os últimos 2 anos com esses autores, mostrando nossa disposição de participar nesse movimento em prol da Teoria Miogênica. O retorno a esta discussão acontece em um momento muito especial, com os recentes achados de que substâncias similares a estrofantina e a digital são geradas pelo próprio organismo humano funcionando como hormônios naturais e complementados pela administração de cardiotônicos extraídos de plantas, quando a produção endógena é insuficiente para atender as necessidades do coração -- situação comparável ao que acontece no caso da insulina para o diabetes. Essa descoberta vem de encontro aos preceitos da Teoria Miogênica do enfarte do miocárdio que o relaciona ao enfraquecimento do músculo cardíaco que precisa ser tonificado.
Parece que, da mesma forma que no caso do telescópio de Galileu, os avanços que estão acontecendo na ciência e na tecnologia cardiológica caminham a passos largos, e de forma inevitável, para a redescoberta e confirmação da Teoria Miogênica.
Apesar do extraordinário número de contribuições pioneiras que o Doutor Mesquita fez para a medicina ele não se considerava um cientista, só um repórter da cardiologia, registrando em seus escritos as observações e avaliações do que se prescrevia, permanecendo eclético na procura do melhor para seus pacientes.
Seu poder de observação era algo de extraordinário. Disse-me uma certa vez que, na época em que os eletrocardiogramas precisavam ser revelados fotograficamente, não tinham sido lançados ainda eletrocardiógrafos de inscrição direta, antecipava muitas vezes o diagnóstico só pelo movimento da corda do equipamento.
O Doutor Mesquita era um apaixonado pelas suas atividades de prática médica e de pesquisas. Atendia cada doente com ternura, humanidade e dedicação, respeitando a dualidade corpo-mente. Ele tratava de seus pacientes e não, apenas, de suas doenças, valorizando igualmente o lado da arte e o lado científico na medicina. Para reforçar a confiança dos pacientes em si próprios, considerada por ele como um dos principais coadjuvantes da medicação cardiotônica permanente no tratamento da doença cardíaca, dizia no momento em que perguntavam quando deveriam retornar a seu consultório: "Quando tiver saudades de mim!".
Sem nenhuma dúvida o Doutor Mesquita deixou uma marca indelével por onde passou, pela sua grandeza de caráter e de espírito, dignidade e humanitarismo. Ele foi uma pessoa muito querida e central na família. Seu falecimento foi um grande impacto para os parentes, amigos e pacientes, causando até hoje, passados 3 anos, uma sensação de vazio difícil de preencher.
O escritório em sua residência, local onde praticava ciência, estudando e pesquisando, tem uma biblioteca com muitas dezenas de livros médicos e pastas com artigos selecionados, vários de sua autoria, representando uma grande inspiração e boas recordações para todos aqueles que ainda o visitam. O escritório está sendo preservado pela família e pelo Instituto, que administra o acervo de documentos relacionados às suas realizações médico-científicas.
Enfim, estamos empenhados em dar seguimento à luta do Doutor Mesquita através da obtenção de seu devido reconhecimento público quanto às conquistas que fez para a medicina. É a missão do Instituto e de todos os que o apóiam.
Carlos Monteiro
Genro, amigo e permanente colaborador
São Paulo, 28 de outubro de 2003
Leia também: "Quintiliano H. de Mesquita: A História e a Luta de um Gênio da Medicina do Século XX" em http://www.infarctcombat.org/qhm/GM.html |