Instituto de Combate ao Enfarte do Miocárdio

 


 

 Estatinas na Prevenção: Muitos Riscos, Poucos Beneficiados!

 

1. Estatinas e Câncer

Segundo estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana em 1996 (1), todos os membros das 2 classes mais populares de remédios para redução do colesterol (os fibratos e as estatinas) causam câncer em animais de laboratório, especialmente roedores, em alguns casos de exposição no animal próximas daquelas prescritas aos humanos. A evidência do potencial carcinogênico dos remédios de redução de lipídios nos testes clínicos realizados em humanos é inconclusivo por causa dos resultados inconsistentes e a duração insuficiente no follow-up. O estudo ressaltou que a extrapolação da evidência da carcinogenecidade de roedores para humanos é um processo incerto. E, que testes clínicos de longo prazo e uma cuidadosa vigilância nas próximas décadas serão necessários para determinar se os remédios para redução do colesterol causam câncer em humanos. O estudo colocou ainda que os resultados dos experimentos em animais e humanos sugerem que o tratamento com remédios que reduzem os lipídios deve ser evitado, especialmente fibratos e estatinas, com exceção naqueles pacientes que tenham risco de doença cardíaca no curto prazo.

As estatinas, comumente usadas em doses para redução do colesterol abaixo de 160 mg/dL, tem este nível associado a altas taxas de câncer conforme relatório da conferência realizada em 1990 pelo Instituto Nacional de Coração, Pulmão e Sangue (NHLBI) dos EUA (55).

Estudo com duração de 12 anos publicado em 1999, o qual analisou a mortalidade por câncer em 3.232 indivíduos idosos (> ou =  65 anos), encontrou que aqueles com muito baixo colesterol (< ou = 178 mg/dl) tiveram um aumentado risco na mortalidade por câncer (176).

Pesquisa recentemente publicada encontrou uma significativa associação entre o uso de estatinas e o risco de neoplasias linfóides malignas (linfomas e mielomas) (165) .

Outra recente pesquisa, esta publicada em 2007 na revista do Colégio Americano de Cardiologia, vem gerando grande polêmica no meio científico. Pesquisadores norte-americanos, avaliando a saúde de 41 mil pacientes que ingeriam estatinas para baixar os níveis de colesterol, concluíram que quanto mais baixo era o colesterol, maior foi a ocorrência de câncer (182).

2. Tentativas para desregulamentação das Estatinas, descuidos em seu uso e a rabdomiólise

Artigo publicado em 2001 (2), informou que o largo uso das estatinas vem junto com alguns descuidos quanto aos efeitos colaterais. Valores seguros de laboratório não foram determinados, contra-indicações não foram consideradas seriamente, e a falta de estudos clínicos quanto aos objetivos fundamentais foram negligenciados.

Adicionalmente, continuam a acontecer, por iniciativa de algumas indústrias farmacêuticas, tentativas de desregulamentação das estatinas nos EUA, no intuito de serem vendidas legalmente sem receita médica – as quais foram inicialmente sustadas em 2000 pelo FDA (Food and Drugs Administration - órgão americano de controle sanitário). Novo pleito feito pela Merck, para venda da lovastatina de 20 mg (Mevacor), de sua fabricação, sem receita médica, foi negado por 20 votos a 3 pelo FDA  em janeiro de 2005. Também a Bristol Myers Squib tem intenções de pleitear novamente a aprovação junto ao FDA para venda, sem prescrição médica, da pravastatina de 20 mg (Pravachol) (27, 49, 52,128).

No Reino Unido a simvastatina de 10 mg, de fabricação Merck, poderá ser vendida pelas farmácias, sem a necessidade de receita médica, a partir de Julho de 2004. Esta recente decisão do Departamento de Saúde da Inglaterra foi bastante criticada em editorial no Lancet que citou uma série de desconhecimentos e dúvidas existentes quanto a segurança e eficácia das estatinas. O editorial colocou que essa experimentação em larga escala torna o público do Reino Unido fazendo o papel de cobaia (48). Reportagem do British Medical Journal mostrou que enquanto grupos farmacêuticos e a Fundação Britânica do Coração apoiaram a reclassificação da simvastatina para venda sem receita médica outros não a apoiaram por diversas razões, entre elas os possíveis efeitos colaterais que não terão uma cuidadosa avaliação. A Associação de Consumidores, por exemplo, disse ao British Medical Journal que nenhum teste clínico específico provou que vender o produto sem prescrição médica tenha sido efetivo na população em alvo. Essa associação argumentou também que nenhum teste clínico estabeleceu a eficácia das estatinas quando o alvo são pessoas com moderado risco de doença cardíaca além de que o público está sendo usado como cobaia (49, 86)

O British Medical Journal já havia recebido cartas de médicos condenando a idéia da venda de estatinas sem prescrição médica no Reino Unido. Em uma delas dizia: “A despeito do alarde da indústria, não existem dados, nenhum, mostrando que as estatinas são um benefício para pessoas sem doença arterial coronária. Colocar pessoas sob medicação pela vida inteira, quando elas não têm doença coronária, as expõe a riscos em sua saúde e custos financeiros, possivelmente sem benefícios. Encorajar pessoas a se colocarem em uma vida inteira de medicação em consulta com um farmacêutico não parece consistente com a meta de se promover a saúde pública” (49).

O professor Ian Graham, de Dublin - Irlanda, argüindo contra a idéia da venda de estatinas sem receita médica, apontou em debate realizado pela Sociedade Européia de Cardiologia em Munique, Alemanha, que a dose de 10 mg de simvastatina não foi suficientemente estudada em testes clínicos, de forma que os benefícios e riscos não são conhecidos. “Nós não sabemos qual será o benefício que terá a dose de 10 mg, e as estatinas não mostraram que providenciam benefícios gerais na saúde durante a prevenção primária, portanto o argumento sobre a melhoria na saúde não foi provada. Em adição, a simvastatina tem apreciáveis interações com outros remédios, de modo que existem riscos”, ele disse (102).

A partir da liberação da simvastatina de 10 mg para venda sem receita médica no Reino Unido, em Julho de 2004, os farmacêuticos ingleses começaram a planejar visitas as tavernas (pubs) para “educar” os bebedores sobre os riscos da doença cardíaca e oferecer tratamento, inclusive checagem da saúde no local, com testes para verificar o colesterol e, oferecendo estatinas para aqueles que precisam tomá-las (87).

Após 7 meses da liberação da simvastatina para venda sem receita médica no Reino Unido, os especialistas convocaram seus colegas no intuito de se fazer uma revisão completa na segurança relacionadas as estatinas. Isto porque informações do governo mostraram que 92 óbitos estariam relacionados a essas drogas para redução do colesterol (130).

Em 2001 houve a retirada do mercado do remédio empregado para redução do colesterol a base de cerivastatina*, devido a diversas mortes causadas pelo seu uso. O efeito colateral apontado como a causa das mortes pela cerivastatina foi a rabdomiólise, que é uma degeneração muscular resultante de uma quebra nas células dos músculos e liberação do conteúdo dessas células musculares no fluxo sangüíneo. Embora em diferentes graus, todas as estatinas podem induzir a miotoxidade, especialmente quando em altas dosagens. As estatinas devem ser retiradas prontamente caso haja suspeita de miopatia, prevenindo assim a rabdomiólise (3). Entre os sintomas da rabdomiólise estão incluídos: dores musculares, fraqueza, mal-estar, febre, urina escura, náusea e vômito. A dor pode envolver grupos específicos de músculos ou pode estar generalizada através do corpo. Na maioria dos casos de rabdomiólise relatados o uso de estatinas foi superior a uma semana. Entretanto, a rabdomiólise também já foi diagnosticada após uma simples dose de estatina (26).

Em 4 de março de 2004, o Public Citizen, entidade americana de defesa do consumidor, pediu a retirada do mercado da rosuvastatina**. Essa entidade alegou que recebeu relatórios do próprio FDA e de agências de saúde do Canadá e do Reino Unido informando que sete pessoas sofreram perigo de vida por rabdomiólise e outras nove tiveram insuficiência ou dano renal tomando a rosuvastatina. Posteriormente, em 16 de maio de 2004, o Public Citizen fez nova petição ao FDA insistindo no banimento da rosuvastatina, citando que o FDA relatou onze novos casos de rabdomiólise desde o mês de fevereiro, sendo que vários pacientes estavam tomando uma dosagem diária de apenas 10-mg. A rosuvastatina foi aprovada pelo FDA em agosto de 2003, sofrendo questionamentos desde essa época sobre seu licenciamento sem maiores testes clínicos e quanto ao marketing agressivo e precipitado desenvolvido pela AstraZeneca. Em 9 de junho de 2004 o FDA emitiu um alerta público sobre os novos efeitos colaterais encontrados na rosuvastatina, informando que está analisando os dados de segurança acumulados nos EUA e a nível mundial, os quais serão considerados em futuras determinações de mudanças em seus rótulos. A atitude do Ministério da Saúde do Canadá foi a de mandar um alerta a todos os médicos canadenses sobre as condições potencialmente perigosas relacionadas a rosuvastatina (45, 46, 47, 60, 70, 72, 75).

*Fabricada pela Bayer. Vendida no Brasil como Lipobay e sob a marca Baycol em outros paises.

** Fabricada pela AstraZeneca. Vendida sob a marca Crestor.

 

3. As estatinas e os efeitos adversos de sua descontinuação

Estudo publicado no Circulation em 2002 (4) e discutido no Lancet (5), sugere que a retirada da terapia através da estatina de forma abrupta pode causar uma reação inesperada e séria. No artigo Christian Hamm e colegas disseram que a descontinuação das estatinas após o início dos sintomas coronários leva ao aumento do risco de óbito por eventos coronários. Estes pesquisadores investigaram 1.616 pacientes admitidos ao hospital com doença coronária e dor no peito, sendo monitorados por 30 dias para avaliação de taxas de óbito e de enfarte do miocárdio não fatal. 1249 pacientes não estavam recebendo terapia através de estatinas; 379 pacientes já estavam tomando estatinas e continuaram a terapia durante 30 dias; e 86 pacientes descontinuaram a terapia através da estatina na admissão hospitalar. Como resultado da retirada da estatina após a admissão hospitalar, o risco cardíaco subiu quase 3 vezes nestes pacientes do que naqueles que continuavam a receber as estatinas previamente prescritas. E claro, diz Hamm, “que médicos definitivamente não devem parar com a terapia através de estatinas em pacientes com síndromes coronárias agudas, já que isto pode ser prejudicial”. 

Em posterior correspondência (6) fazendo uma reavaliação sobre seu artigo original (4) os autores colocam que alguns dados do estudo apresentaram imprecisões prejudicando suas conclusões originais. O risco corrigido, apesar de ser mais modesto, continuou a ser mais alto em pacientes que descontinuaram a terapia através de estatinas em comparação com aqueles que continuaram a usá-las. Assim eles recalcularam as taxas brutas quanto ao acontecimento de enfarte do miocárdio ou óbito em 30 dias resultando em 4.2% entre os pacientes que continuaram tomando estatinas e de 9.4% entre os pacientes que descontinuaram o uso de estatinas. Os autores mantiveram que sua hipótese sobre o rebote da estatina permanece interessante e merecendo novos testes clínicos.

Novo trabalho comparou três grupos de pacientes, todos admitidos ao hospital com enfarte do miocárdio sem elevação do segmento ST. O primeiro grupo envolveu 9001 pacientes tomando estatinas anteriormente a hospitalização, o qual também recebeu estatinas dentro de 24 horas da hospitalização. O segundo grupo de 4870 pacientes recebeu previamente a terapia através de estatinas mas teve seu tratamento descontinuado dentro de 24 horas após a admissão, enquanto o terceiro grupo de 54 635 pacientes não tomou estatinas antes ou durante a hospitalização. Comparando esses grupos os pesquisadores acharam que 12.5% daqueles pacientes cuja terapia foi descontinuada morreram no hospital ou experimentaram insuficiência cardíaca, edema pulmonar, choque cardiogênico, taquicardia, ou parada cardíaca. Isto foi significativamente maior do que os 4.9% pacientes que permaneceram no tratamento com estatinas e experimentaram quaisquer desses eventos (120).

Outro estudo (33) sugeriu que o estado de hiper-ativação de plaquetas na segunda semana após a descontinuação da estatina, está parcialmente relacionado com o aumento de LDL-C. Tal achado poderia participar, segundo os autores, da crescente taxa de eventos cardiovasculares após a descontinuação da estatina.

Também existem evidências sugerindo que a descontinuação súbita da medicação através de estatinas exerce efeitos vasculares negativos em pacientes com eventos vasculares agudos (derrame) (170)

Levantamento feito no banco de dados de pesquisa prática geral do Reino Unido (GPRD), entre janeiro de 1990 e dezembro de 1997, identificou 22.408 pacientes que iniciaram a terapia por drogas redutoras de lipídios devido a doença coronária, hiperlipidemia e outras doenças ateroscleróticas, os quais receberam duas ou mais prescrições entre janeiro de 1990 e dezembro de 1997. O estudo mostrou que a descontinuação e troca da terapia de lipídios foi comum durante o período de estudo, especialmente entre aqueles não recebendo fibratos ou estatinas. O estudo concluiu que a descontinuação no tratamento, após o início ou troca de terapia de redução de lipídios, é aumentada largamente com co-morbidades cardiovasculares concomitantes, e utilização de mais cuidados na saúde, sendo mais comum nos casos de estatinas do que em outros redutores de lipídios (69).

O Dr. Jean Davignon, chefe de pesquisas de uma clínica em Montreal que trata de doenças cardíacas, disse em entrevista: “Os pacientes não devem parar de tomar o remédio sem antes consultarem seus médicos. A parada abrupta da medicação para redução do colesterol pode levar a deterioração da saúde, e até mesmo ameaçar a vida” (70).

Os estudos acima, mostrando a dependência das estatinas pelo organismo, nos pacientes que podem piorar na retirada desta dispendiosa terapia, trazem grandes preocupações por sua indicação estar cada vez maior dentro da medicina atual.

Cerca de 30% dos pacientes descontinuam as estatinas durante os primeiros meses de tratamento (71, 151). Estudos envolvendo pacientes idosos notou uma taxa de aderência para a terapia através de estatinas, em 2 anos, de somente 40,1% para síndromes coronárias agudas, de 36,1% para a doença arterial coronária e de 25,4% para a prevenção primária (122).

Um exemplo recente foi a parada do uso de estatina pelo ex-Presidente Clinton que, segundo alguns médicos, pode ter precipitado os sintomas que o levaram a cirurgia para implantação de quatro pontes de safena, aconselhada na suposição de que elas poderiam evitar um futuro enfarte. Sua função cardíaca estava normal antes da operação, sendo que ele não sofreu nenhuma síndrome coronária aguda . Outro motivo para a cirurgia foi de que Clinton teria uma obstrução superior a 90% em suas artérias, argumento que sofre controvérsias (99, 100, 101).

Estudo recente contesta que a descontinuação abrupta das estatinas no curto prazo aumente a taxa de sindromes coronárias agudas em pacientes com doença cardíaca estável. Dos 18 468 pacientes triados para a participação no estudo, 16 619 entraram em um período de dieta com o início do uso/retirada das drogas e desses 15 432 pacientes foram qualificados para começar o tratamento com atorvastatina de 10 mg/dia, sendo que 57% deles já estavam recebendo estatinas previamente. O estudo demonstrou que a abrupta descontinuação da terapia por estatinas no curto prazo não alterou significativamente o risco de síndromes coronárias agudas nesses pacientes.

Entretanto, seus autores admitiram que os participantes dos testes clínicos tenderam a ser relativamente saudáveis e estáveis e portanto tiveram dramáticas diferenças clínicas comparativamente a outros pacientes com eventos coronários agudos onde aconteceram grandes aumentos no risco cardíaco com a retirada abrupta das estatinas após a admissão hospitalar. Deve ser enfatizado que os pacientes envolvidos no atual estudo receberam, na sua grande maioria, uma baixa dosagem desses remédios (10 mg/dia), o que pode, naturalmente, fazer alguma diferença. Também, deve-se aguardar por novos trabalhos demonstrando os resultados da retirada abrupta de estatinas no médio e longo prazo em pacientes com doença cardíaca estável. Afinal, diversos outros estudos mostram que efeitos benéficos do uso de estatinas na prevenção costumam aparecer somente a partir do primeiro ano após o início da terapia (121).

4. As estatinas e os riscos para o bebê no primeiro trimestre da gravidez

Pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos EUA revisaram vários casos de exposição a estatina no primeiro trimestre de gravidez, que foram relatados ao FDA entre 1987 e 2001. O estudo encontrou que o uso da estatina está associado com graves defeitos no sistema nervoso central, deformidade nos membros e outros problemas graves. Esses achados foram reportados em correspondência ao New England Medical Journal de 8 abril de 2004, alertando que entre 52 bebês expostos a estatina no útero, 20 deles nasceram com malformação (64) .

O Dr. Maximilian Muenke, um dos autores da correspondência ao NEJM, que é chefe da área de genética do National Genome Research Institute, em Bethesda - EUA, afirmou “Nós não podemos dizer se os defeitos foram causados pelo uso das estatinas, mas outros estudos de defeitos de nascimento sugerem que esses são tipos de problemas que ocorrem se o embrião não consegue colesterol suficiente no início da gestação para se desenvolver normalmente. Muenke disse também que a maioria das pessoas que usam essas medicações estão acima de 45 anos, mas que 1 a 3 por cento das prescrições para estas medicações são dadas a mulheres em seus anos de gravidez. O Dr. Muenke adiciona que é muito difícil saber se existem mais defeitos de nascimento achados em mulheres que tomam estatinas, porque o sistema de relatórios ao Food and Drugs Administration é voluntário e muitas mulheres não reportam essa exposição a estatina no início da gravidez (64).

Este é mais um argumento contra a liberação para venda de estatinas sem receita médica. Ainda mais levando-se em consideração que muitas mulheres não planejaram sua gravidez expondo, sem conhecimento, seus fetos as estatinas. Aliás, os conselheiros do FDA levantaram tal preocupação quando negaram a venda sem receita médica da lovastatina em janeiro de 2005 (128).

A falta de atitudes preventivas pelas autoridades encarregadas da saúde nos diferentes países para esse problema poderá levar a um desastre médico de grandes proporções no futuro próximo.

É preciso lembrar do triste episódio dos bebês nascidos com malformação dos membros e outras disfunções nos órgãos, causados pelo uso da droga talidomida no início dos anos 60. A talidomida atingiu cerca de 20% dos fetos expostos a ela, apresentando proporcionalmente menos riscos do que os apresentados agora pelos pesquisadores do NIH para as estatinas.

Estudo publicado em outubro de 2005 confirmou que a estatina pode afetar de forma adversa as células trofoblásticas, as quais começam a proliferar à partir da 2ª semana da fecundação (156).

5. Do aumento na taxa de mortalidade e de ataques de coração em pacientes que tomaram estatina logo após síndromes coronárias agudas

Kristin Newby e colegas da Duke University procuraram verificar em estudo (13), que se baseou em 2 testes internacionais randomizados (SYMPHONY e 2º SYMPHONY) envolvendo um total de 12.365 pacientes com síndrome coronária aguda, se as estatinas seriam mais benéficas se fossem prescritas quando os pacientes ainda estivessem nos hospitais, ao invés de somente após sua alta. No curso do estudo encontraram entre 2.711 pacientes com níveis baixos de colesterol (<130), e que receberam estatinas na fase hospitalar, um aumento nas taxas de óbito e de enfartes posteriores. Estes autores aconselharam a realização de testes mais largos e aleatórios. Até lá, eles escreveram, os clínicos devem usar de precaução em iniciar a terapia com estatinas, logo após síndromes coronárias agudas, neste tipo de pacientes.

6. Do aumento substancial no risco de polineuropatia idiopática em pacientes tomando estatinas por um longo período de tempo

Diversos relatórios de casos e um estudo epidemiológico indicaram que o uso de estatinas poderia provocar, ocasionalmente, um efeito deletério no sistema nervoso periférico (14). Posteriormente esses autores realizaram novo estudo populacional durante 5 anos (1994-1998) com o objetivo de se estimar o risco relativo de polineuropatia idiopática nos usuários de estatinas (15). Como resultado, os autores verificaram que a polineuropatia idiopática tem uma probabilidade 26 vezes maior de acontecer nas pessoas que tomaram estatinas por mais de 2 anos.

7. As Estatinas e a disfunção erétil

A disfunção erétil é comum embora pouco relatada pelos pacientes que tomam estatinas e fibratos. Uma revisão sistemática procurou coletar evidências para confirmar essa associação com a impotência sexual. O estudo apontou que um substancial número de casos de disfunção erétil em pacientes tomando estatinas têm sido relatados as agências regulatórias (25). Reportagem da BBC News, realizada em 2000, informou que o Dr. John Harvey do Hospital Wrexham Maelor em Gales, na Grã-Bretanha, identificou 220 homens que pareceram ter perdido sua virilidade após começarem a tomar estatinas, mencionando que os resultados do estudo foram publicados no New Scientist Magazine (42). Outros estudos têm observado este efeito adverso das estatinas (43, 44, 138, 164).

8. Os efeitos adversos na insuficiência cardíaca crônica

Os efeitos adversos potenciais das estatinas na insuficiência cardíaca crônica (ICC) incluem a redução dos níveis da coenzima Q10 (a qual pode em adição exacerbar o estresse oxidativo na ICC) e perda da proteção que as lipoproteinas podem prover, através da desintoxicação das endotoxinas que entram na circulação via gastro-intestinal. Em suporte a essas possibilidades estão os dados epidemiológicos vinculando o baixo colesterol no sangue com um pobre prognóstico na ICC. Essas incertezas indicam a necessidade da realização de um teste definitivo quanto aos resultados para avaliação da eficácia e segurança das estatinas na ICC, a despeito de seu largo uso corrente, não baseado em evidência nessa população. Ainda mais que os EUA está no meio de uma epidemia de insuficiência cardíaca congestiva, cuja causa ou causas não estão ainda esclarecidas (28, 29).

O Dr. Andrew Clark da Universidade de Hull no Reino Unido, comentou ao Heartwire (83) sobre trabalho publicado em 2003 no Journal of American College of Cardiology (82), mostrando uma relação entre altos níveis de colesterol e aumento na sobrevida em pacientes com insuficiência cardíaca e o baixo colesterol no sangue, independentemente associado com uma piora no prognóstico . Ele, que foi um dos autores, disse: “Minha recomendação no momento é a de não usar estatinas nos pacientes com insuficiência cardíaca. Eu não tenho evidência para acreditar que elas são boas e um bocado de evidência para suspeitar que elas são ruins”. Outros pesquisadores tem feito observações similares. Estudo, liderado pelo Dr. Horwich, incluindo 1.134 casos de pacientes com insuficiência cardíaca grave, verificou que após cinco anos 62% dos pacientes com colesterol abaixo de 129 mg/L tiveram óbito enquanto que somente a metade dos pacientes com colesterol acima de 223 mg/L faleceram (92).

O Dr. Peter Langsjoen, cardiologista americano, relatou em trabalho publicado em 1990 que as estatinas, reduzindo o colesterol, reduzem também o nível da coenzima Q10, que é indispensável para a função cardíaca. Esse trabalho mostrou histórias de casos de pacientes que sofreram degeneração progressiva, mas cuja função cardíaca melhorou após a administração de suplemento de coenzima Q10 por via oral (84).

Em 2002 o Dr. Langsjoen descreveu em artigo sua experiência de 17 anos observando o uso de estatinas em pacientes, onde diz: “Eu tenho visto um aumento assustador na insuficiência cardíaca secundária ao uso da estatina. Nos últimos 5 anos as estatinas se tornaram mais potentes, estão sendo prescritas em doses mais altas, e estão sendo usadas com um despreocupação negligente nos idosos e em pacientes com níveis de colesterol normal (85)

Em estudo mais recente publicado em 2004 o Dr. Langsjoen e seu grupo procuraram avaliar a função diastólica do ventrículo esquerdo através da doppler-ecocardiografia antes e após a terapia por estatinas em 14 pacientes. O resultado foi uma piora dos parâmetros diastólicos na maioria dos casos. Com a suplementação por coenzima Q10 houveram melhorias significativas na função diastólica desses pacientes. Essas melhorias foram vistas ainda que os níveis de coenzima Q10 decresceram em 5 pacientes, permaneceram em 4 pacientes e aumentaram em 5 pacientes durante a terapia. A respeito disso os investigadores disseram: “Já que os níveis de coenzima Q10 não predizem disfunção, a administração rotineira concomitante com as estatinas, especialmente em pacientes sob risco, parece prudente”.  A disfunção diastólica é a principal causa de insuficiência cardíaca crônica nas pessoas idosas (125).

9. De outros efeitos adversos em pacientes tomando estatina

 

A Universidade da Califórnia em San Diego iniciou em 1999, sob o patrocínio do Instituto Nacional de Saúde Americano (NIH), estudo para verificar os efeitos não cardiovasculares do uso de estatinas. O projeto, que tem a Dra. Beatrice Golomb como principal investigadora, deverá estar concluído em 2004. O UCSD Statin Effects Study (18, 30) como vem sendo  chamado, poderá esclarecer sobre diversos efeitos associados ao uso das estatinas, que vem sendo apontados em diversos estudos clínicos como por exemplo: problemas hepáticos, problemas renais, problemas gastro-intestinais, pancreatite aguda, fraqueza e dor muscular, intolerância a exercícios, fadiga extrema, insônia, dores de cabeça, náuseas, neuropatia, desregulação na temperatura (sentir frio ou calor), miastenia ocular, degeneração macular, perda de memória, amnésia, dificuldades de concentração e redução na função cognitiva além de distúrbios no humor e no comportamento, como depressão e irritabilidade, incluindo violência e suicídio, fatores que em alguns casos seriam, possivelmente, causados pela redução no nível do colesterol (18, 30, 31, 54, 98, 148, 149, 154, 167, 168, 169, 177).

O Wall Street Journal, em sua edição de 29 de janeiro de 2004, discutiu sobre a publicação de resultados parciais do USCD Statin Effects Study (30), reproduzindo a citação do principal investigador que afirma que 15% dos pacientes tomando estatinas são afetados por efeitos cognitivos adversos - incluindo perda de memória (32). Em 24 de maio de 2004 a Dra. Golomb disse a CBS News que as estatinas podem ajudar ao coração mas também podem dificultar a performance cerebral e disparar outros problemas sérios (51).

Em recente publicação, usando os dados do estudo de Framingham, foi mostrado um vínculo entre baixos níveis de colesterol (< 200 mg/dL), que ocorreram naturalmente, e uma pobre performance cognitiva. Nos resultados houve uma significativa e linear associação entre o colesterol total e medidas de fluência verbal, atenção/concentração, raciocínio abstrato, e outras reduções cognitivas (134). Outro estudo publicado em 2004 já havia mostrado resultados similares (135).  Esses estudos corroboram outras pesquisas que mostraram efeitos cognitivos prejudiciais na redução do colesterol com o uso de estatinas (136, 137)

Estudo  recente levantou a hipótese de que a redução do colesterol induzida por estatinas pode contribuir para o dano do músculo esquelético, mesmo em pacientes sem mialgia (174). É interessante observar que atletas com hipercolesterolemia familiar raramente toleram terapia com estatinas devido a problemas musculares (175).

Finalmente, temos a preocupação levantada recentemente de que as estatinas possam causar o desenvolvimento do Mal de Parkinson, baseada em pesquisa mostrando que pessoas com baixos níveis de colesterol estão mais predispostas a essa doença (178, 179). Outra preocupação existente é que o declínio nos níveis totais do colesterol precedem pelo menos 15 anos antes o diagnóstico de demência, conforme estudo recentemente publicado (180).

10. Dos estudos que mostram redução nas taxas de eventos cardiovasculares e de mortalidade no uso de estatinas

Em 13 de novembro de 2001 (7, 8), durante sessão cientifica da American Heart Association (Associação Americana do Coração), foram apresentados os resultados do maior teste realizado até hoje na avaliação dos efeitos da terapia através da redução do colesterol em pacientes com alto risco de doença cardiovascular.

Este estudo, que teve uma duração de 5 anos foi desenvolvido pelo HPS (Heart Protection Study), envolvendo mais de 20.000 pacientes - entre 40 e 80 anos de idade. Destes pacientes 10.269 se submeteram ao tratamento através de estatina (simvastatina) e 10.267 se submeteram ao placebo (substância que não contêm nenhuma medicação, administrada pelo seu efeito psicológico no paciente).

Os resultados do estudo desenvolvido pelo HPS, publicado no Lancet em 2002 (12), foram os seguintes:

 

 

SIMVASTATIN: EVENTOS CARDIOVASCULARES MAIS SÉRIOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estatinas

 

Placebo

 

Redução no Risco

 

 

 

 

10.269 pts.

 

10.267 pts.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Total de enfartes

 

914

 

1234

 

320 pts. = 3.2%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Total de derrames

 

456

 

613

 

157 pts. = 1.5%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAUSAS DE MORTALIDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estatinas

 

Placebo

 

Redução no Risco

 

 

 

 

10.269 pts.

 

10.267 pts.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enfarte

 

 

577

 

701

 

124 pts. = 1.2%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outras vasculares

 

214

 

242

 

28 pts. = 0.28%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mortalidade geral

 

1.328

 

1.503

 

175 pts. = 1.7%

 

 

Uma análise objetiva nos números de redução do risco absoluto no grupo de pacientes de alto risco vascular, tratados com estatina (simvastatina), indica que (9):

  • Precisam ser tratados 32 pacientes para ser evitado 1 enfarte em 5 anos.

  • Precisam ser tratados 65 pacientes para ser evitado 1 derrame em 5 anos.

  • Precisam ser tratados 82 pacientes para ser evitado 1 óbito por enfarte em 5 anos.

  • Precisam ser tratados 366 pacientes para ser evitado 1 óbito por outras doenças vasculares em 5 anos.

  • Precisam ser tratados 58 pacientes para ser evitado 1 óbito na mortalidade geral em 5 anos.

O que cabe perguntar: Será que as pessoas bem informadas escolheriam se tratar com estatinas para ter um benefício de uma em 32 chances para evitar o enfarte, de uma em 65 chances para evitar o derrame, de uma em 82 chances para evitar o óbito por enfarte, de uma em 366 chances para evitar o óbito por outras doenças vasculares e de uma em 58 chances para evitar o óbito por qualquer causa em 5 anos?

Outro estudo, o LIPID Trial (10, 11), envolveu 9.014 pacientes com enfarte ou angina instável prévios, que se submeteram a terapia através de estatina (pravastatina), sendo seguidos por 6 anos e estendido follow-up por mais 2 anos para 97% dos sobreviventes (7.690 pts). Abaixo apresentamos os resultados do período de 8 anos desse estudo: 

 

 

PRAVASTATINA: EVENTOS CARDIOVASCULARES MAIS SÉRIOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estatinas

 

Placebo

 

Redução no Risco

 

 

 

 

3.914 pts.

 

3.766 pts.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Total de enfartes

 

435

 

570

 

135 pts. = 3.4%

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Total de derrames

 

224

 

272

 

48 pts. = 1.2%